{"id":7255,"date":"2019-02-04T13:25:58","date_gmt":"2019-02-04T16:25:58","guid":{"rendered":"https:\/\/abemi.sancho.digital\/roberto-mendonca-ex-presidente-da-setal-e-da-abemi-acredita-que-a-engenharia-brasileira-precisa-resgatar-sua-saude-e-sua-moral\/"},"modified":"2022-11-09T10:26:35","modified_gmt":"2022-11-09T13:26:35","slug":"roberto-mendonca-ex-presidente-da-setal-e-da-abemi-acredita-que-a-engenharia-brasileira-precisa-resgatar-sua-saude-e-sua-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abemi.org.br\/en\/roberto-mendonca-ex-presidente-da-setal-e-da-abemi-acredita-que-a-engenharia-brasileira-precisa-resgatar-sua-saude-e-sua-moral\/","title":{"rendered":"Ex-presidente da ABEMI acredita que a engenharia brasileira precisa resgatar sua sa\u00fade e sua moral"},"content":{"rendered":"<p>A cratera na constru\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o Pinheiros do metr\u00f4 h\u00e1 12 anos e os diversos viadutos que cederam em S\u00e3o Paulo, o rompimento da barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o em Mariana, h\u00e1 tr\u00eas anos, e a cat\u00e1strofe semelhante que acaba de acontecer em Brumadinho s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que deixam os brasileiros perplexos. Os viadutos na capital paulista n\u00e3o fizeram v\u00edtimas, felizmente, mas o potencial de danos era enorme. <strong>Chamada a executar projetos grandiosos no exterior no passado, a engenharia brasileira entrou em crise? O que est\u00e1 acontecendo com o setor?<\/strong><\/p>\n<p>O engenheiro <strong>Roberto Mendon\u00e7a<\/strong>, ex-presidente da Setal e ex-presidente da ABEMI, analisa a situa\u00e7\u00e3o e fala sobre o desafio de resgatar a sa\u00fade da engenharia nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Newsletter ABEMI<\/strong> \u2013 <em>Em que medida a engenharia brasileira \u00e9 respons\u00e1vel por trag\u00e9dias como a de Mariana e Brumadinho e os problemas nas pontes e viadutos em S\u00e3o Paulo, s\u00f3 para citar alguns exemplos?<\/em><\/p>\n<p><strong>Roberto Mendon\u00e7a<\/strong> \u2013 A engenharia tem grande responsabilidade em todos esses casos. <strong>Infelizmente, nossa engenharia, que j\u00e1 foi um orgulho do Brasil at\u00e9 a d\u00e9cada de 80, acabou se desvirtualizando, se enfraquecendo muito.<\/strong> Hoje temos uma engenharia que est\u00e1 caindo num abismo e n\u00e3o conseguimos nem vislumbrar o fundo desse abismo. Em todas essas trag\u00e9dias, a engenharia \u00e9 c\u00famplice, sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>Como se deu esse enfraquecimento?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 Tem uma s\u00e9rie de fatores. Um dos mais importantes foi muito bem colocado pelo blogueiro de intelig\u00eancia estrat\u00e9gica Jorge Hori. Ele diz que a engenharia acabou caindo nas m\u00e3os de administradores corruptos, foi se ligando a isso e perdendo sua moral. Segundo ele<strong>, os administradores p\u00fablicos foram cada vez mais fazendo licita\u00e7\u00f5es pelo menor pre\u00e7o \u2013 e isso ocorre tamb\u00e9m nas empresas privadas \u2013 sem olhar, realmente, se aquele pre\u00e7o era compat\u00edvel com o custo e com o n\u00edvel do servi\u00e7o.<\/strong> A\u00ed come\u00e7ou-se a fazer a sele\u00e7\u00e3o pelos piores. E os piores foram se multiplicando e tendo seus filhotes. O auge, nos \u00faltimos 20 anos, foi mostrado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Ainda segundo Jorge Hori<strong>,<\/strong> no passado, era algo discreto, mas virou um neg\u00f3cio chocante para toda a sociedade, e os \u00fanicos que est\u00e3o sendo culpados s\u00e3o as empresas de engenharia e os engenheiros em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>Quem mais pode ser responsabilizado por essa situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>As empresas de engenharia e os engenheiros t\u00eam uma parcela importante de culpa, mas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos.<\/strong> Existe uma pr\u00e1tica no Brasil, que \u00e9 a concuss\u00e3o. \u00c9 preciso tomar consci\u00eancia disso para poder resolver esse problema. Concuss\u00e3o \u00e9 quando o administrador p\u00fablico, que tem o poder, exige que as empresas se submetam a pagar propina e participar de campanhas eleitorais. Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa de hoje, mas aparece s\u00f3 que as empresas de engenharia corrompem os funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Elas t\u00eam culpa nisso, mais por deixar isso acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>O que esse cen\u00e1rio revela?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>Demonstra um fracasso conjunto da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica com as empresas de engenharia.<\/strong> No caso da ponte que d\u00e1 acesso \u00e0 Via Dutra, interditada em janeiro, o projeto determinava que a camada m\u00e1xima de asfalto seria de 10 cm. Hoje essa camada est\u00e1 em 30 cm, aviltando o projeto, uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o poderia ser feita de jeito nenhum. A engenharia tem culpa nesse aspecto, porque \u00e9 um problema t\u00e9cnico. Essa ponte teria de ter um manual de manuten\u00e7\u00e3o e um manual de opera\u00e7\u00e3o. Sobrecarregaram a ponte fora dos limites do projeto, sobrepondo camadas de asfalto para consertar buracos da maneira errada, mas mais barata. Os administradores p\u00fablicos tamb\u00e9m t\u00eam uma participa\u00e7\u00e3o important\u00edssima nesse processo. O Brasil e a engenharia est\u00e3o doentes, mas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de se restabelecer.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>Qual seria a melhor solu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>As institui\u00e7\u00f5es de engenheiros t\u00eam de pegar firmes uma bandeira de restabelecer a engenharia no Brasil.<\/strong> Temos potencial, compet\u00eancia t\u00e9cnica e precisamos nos livrar desses v\u00edcios que acabamos adquirindo e restabelecer a ordem dentro do setor. O melhor rem\u00e9dio \u00e9 trazer a verdade. A engenharia tem participa\u00e7\u00e3o nesses acidentes, mas n\u00e3o est\u00e1 sozinha. A pris\u00e3o dos engenheiros que emitiram o laudo para a barragem de Brumadinho, que s\u00e3o especialistas e pertencem a uma empresa tecnicamente respons\u00e1vel, representa a pris\u00e3o da pr\u00f3pria engenharia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>O que a trag\u00e9dia de Brumadinho ensina? <\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 Ocorreu um grande erro com a participa\u00e7\u00e3o de engenheiros, que foi a constru\u00e7\u00e3o do refeit\u00f3rio e do escrit\u00f3rio a jusante da barragem. O presidente do Instituto de Engenharia, Eduardo Lafraia, coloca muito bem, que n\u00f3s, como engenheiros, precisamos cogitar todos os riscos e agir para que eles n\u00e3o aconte\u00e7am. <strong>\u00c9 preciso parar de pensar que algo n\u00e3o vai acontecer s\u00f3 porque o risco \u00e9 baixo<\/strong>. O vice-presidente do Instituto de Engenharia, Victor Brecheret, tamb\u00e9m participa dessa ideia. Se existe um risco, ele precisa ser analisado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>Como \u00e9 poss\u00edvel garantir isso?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 \u00c9 previs\u00edvel que a sociedade erre e fa\u00e7a coisas erradas. E \u00e9 por isso que temos o governo, a pol\u00edcia, os ju\u00edzes e \u00f3rg\u00e3os de aprova\u00e7\u00e3o dos projetos. Quem \u00e9 respons\u00e1vel por impedir que a popula\u00e7\u00e3o fa\u00e7a coisas erradas \u00e9 o governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>O principal problema de Brumadinho, ent\u00e3o, foi na aprova\u00e7\u00e3o do projeto? <\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>Sem d\u00favida, houve um erro na engenharia. O refeit\u00f3rio n\u00e3o poderia ser feito naquele local. Mas quem mais falhou foi o governo ao aprovar aquele local para essa constru\u00e7\u00e3o. Todas as pessoas que foram l\u00e1 fiscalizar a obra t\u00eam sua responsabilidade.<\/strong> Hoje todos jogam pedra na companhia porque ela fez essa imbecilidade, mas ningu\u00e9m apontou isso durante o projeto, a constru\u00e7\u00e3o, a aprova\u00e7\u00e3o da planta e durante as visitas que o governo fez \u00e0 barragem de Brumadinho. Devem ter recebido dezenas, talvez centenas de visitas de pessoas do governo e de ongs, mas ningu\u00e9m apontou isso como um problema. Se esse escrit\u00f3rio fosse em outro local, essa trag\u00e9dia seria completamente diferente. Agora, n\u00f3s, engenheiros, precisamos pegar uma bandeira de que n\u00f3s temos compet\u00eancia, que n\u00f3s erramos, mas podemos melhorar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>O que os engenheiros podem fazer nesses casos?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> <strong>\u2013<\/strong><strong> Devem mostrar os riscos e ter a coragem de dizer n\u00e3o, quando a decis\u00e3o tomada n\u00e3o \u00e9 a coisa certa a fazer.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>E se eventualmente eles mostrarem os riscos numa situa\u00e7\u00e3o dessas, mas n\u00e3o forem ouvidos&#8230; <\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>Dever\u00edamos ter uma esp\u00e9cie de disque-den\u00fancia na \u00e1rea de engenharia. Talvez diante de um administrador muito forte, muito impositivo, o engenheiro se submeta a fazer coisas indevidas.<\/strong> Ele est\u00e1 errado, mas o chefe dele tamb\u00e9m est\u00e1 errado. Essa doen\u00e7a \u00e9 que n\u00f3s precisamos corrigir. O engenheiro tem de ter a moral de dizer n\u00e3o e, se for o caso, denunciar o chefe. Ele est\u00e1 errado na hora em que ele cede \u00e0 press\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e0 press\u00e3o do chefe dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RA<\/strong> \u2013 <em>Como seria esse disque-den\u00fancia?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 <strong>Deveria ser um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico ou junto com a iniciativa privada, com o Instituto de Engenharia ou uma institui\u00e7\u00e3o como a ABEMI.<\/strong> Precisamos criar algo novo, diferente, que possa evitar esses absurdos que estamos vendo a toda hora.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>NA<\/strong> \u2013 <em>Que outras situa\u00e7\u00f5es chamam a aten\u00e7\u00e3o no caso de Brumadinho?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 O fato de o alarme n\u00e3o ter funcionado. Se o alarme tivesse soado e se o refeit\u00f3rio n\u00e3o fosse abaixo da barragem, n\u00f3s estar\u00edamos falando sobre outro tipo de acidente. O alarme n\u00e3o funcionar \u00e9 uma falha de engenharia. <strong>A barragem foi constru\u00edda h\u00e1 50 anos com a tecnologia da \u00e9poca. Isso n\u00e3o tem como mudar.<\/strong> <strong>Mas o alarme precisa funcionar. Existem tecnologias conhecidas, f\u00e1ceis, baratas para isso.<\/strong> Deveria ter uma redund\u00e2ncia no alarme, com acionamento autom\u00e1tico e, se falhar, com o alerta sendo emitido a partir do comando de uma pessoa, que, a dist\u00e2ncia, poderia tomar conta de dezenas de barragens ao mesmo tempo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA<\/strong> \u2013 <em>Como o senhor avalia a forma\u00e7\u00e3o dos engenheiros brasileiros? <\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 Eu acho que a forma\u00e7\u00e3o dos engenheiros \u00e9 \u00f3tima. Formamos excelentes engenheiros. S\u00f3 que a moral, o enfrentamento com as institui\u00e7\u00f5es \u00e9 que os engenheiros n\u00e3o est\u00e3o sabendo fazer. Em outras profiss\u00f5es, como na medicina, se voc\u00ea fala para o m\u00e9dico \u201cEu quero que voc\u00ea me opere de uma forma diferente\u201d, ele vai falar n\u00e3o. N\u00e3o vai operar em desacordo com o protocolo. O engenheiro tem de fazer a mesma coisa. O procedimento t\u00e9cnico vem em primeiro lugar, \u00e9 fundamental. Os engenheiros fizeram um juramento exatamente prometendo cumprir o seu dever, n\u00e3o se deixando cegar pelo brilho excessivo da tecnologia e fazendo um trabalho para o bem do homem. \u00c9 o conhecimento cient\u00edfico a servi\u00e7o do conforto e desenvolvimento da humanidade. Precisamos seguir o nosso juramento. N\u00e3o podemos transigir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RA<\/strong> \u2013 <em>Como o corte de custos pode afetar o desempenho da engenharia?<\/em><\/p>\n<p><strong>RM<\/strong> \u2013 Esse tamb\u00e9m \u00e9 um problema. <strong>Muitas vezes, o corte de custos \u00e9 exagerado. Buscar efici\u00eancia \u00e9 importante, mas n\u00e3o podemos permitir que isso afete a seguran\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Editora Conte\u00fado\/Abgail Cardoso<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cratera na constru\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o Pinheiros do metr\u00f4 h\u00e1 12 anos e os diversos viadutos que cederam em S\u00e3o Paulo, o rompimento da barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o em Mariana, h\u00e1 tr\u00eas anos, e a cat\u00e1strofe semelhante que acaba de acontecer em Brumadinho s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que deixam os brasileiros perplexos. 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