{"id":7265,"date":"2019-03-28T19:28:11","date_gmt":"2019-03-28T22:28:11","guid":{"rendered":"https:\/\/abemi.sancho.digital\/a-engenharia-brasileira-tem-de-ser-valorizada-e-respeitada-afirma-andre-glogowsky\/"},"modified":"2022-11-09T10:26:35","modified_gmt":"2022-11-09T13:26:35","slug":"a-engenharia-brasileira-tem-de-ser-valorizada-e-respeitada-afirma-andre-glogowsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abemi.org.br\/en\/a-engenharia-brasileira-tem-de-ser-valorizada-e-respeitada-afirma-andre-glogowsky\/","title":{"rendered":"A engenharia brasileira tem de ser valorizada e respeitada, afirma Andr\u00e9 Glogowsky"},"content":{"rendered":"<p>Os desastres ambientais na \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o colocaram luz e despertaram a aten\u00e7\u00e3o da sociedade para os riscos ambientais. Como evitar esse tipo de cat\u00e1strofe? De quem \u00e9 a culpa?<br \/>\nPara Andr\u00e9 Glogowsky, membro do conselho da HTB \u2013 grupo que controla as empresas Tedesco, Kern, HTB Fit, HTA e PW Constru\u00e7\u00f5es \u2013, em casos como esses \u00e9 preciso uma investiga\u00e7\u00e3o rigorosa, mas sem imediatismo. \u201cQuando um avi\u00e3o cai, o rep\u00f3rter j\u00e1 quer saber na hora por que caiu. N\u00e3o \u00e9 assim\u201d, compara. Na entrevista a seguir, o executivo analisa os desafios ligados \u00e0 gest\u00e3o de riscos e da engenharia.<\/p>\n<p><strong>Newsletter ABEMI &#8211;<\/strong> <strong>Como minimizar os riscos socioambientais de grandes obras?<\/strong><br \/>\n<strong>Andr\u00e9 Glogowsky<\/strong> &#8211; Primeiro, temos de conhec\u00ea-los e quantific\u00e1-los, o que pode ser feito por meio da elabora\u00e7\u00e3o de uma matriz de riscos, que tem de ser compartilhada entre todos os envolvidos: projetista, construtora, cliente, governo, seguradora. Conforme a complexidade da obra, a matriz chega a ter 60 tipos de riscos, que t\u00eam de ser gerenciados. Cuidados no projeto e na execu\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Grandes obras, como hidrel\u00e9tricas, barragens, metr\u00f4s, s\u00e3o obras extremamente complexas e de longo ciclo de vida, ultrapassando os 50 anos, podendo chegar a 100 anos. Precisam seguir as normas t\u00e9cnicas do pa\u00eds e resistir ao tempo e ao uso.<\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Como garantir essa resist\u00eancia ao longo de tanto tempo?<\/strong><br \/>\n<strong>AG &#8211;<\/strong> Para isso, existem as normas t\u00e9cnicas para cada tipo de obra, e cada tipo de material tem seu coeficiente espec\u00edfico de seguran\u00e7a. Para uma ponte, por exemplo, s\u00e3o normas de resist\u00eancia do concreto para suportar o vento e a carga. Numa hidrel\u00e9trica, temos de construir uma barragem que suporte a maior chuva dos \u00faltimos mil anos. <strong>Para calcular esse tipo de risco, consideramos o hist\u00f3rico de estat\u00edsticas de 119 anos de chuva, desde 1900, e extrapolamos para a maior chuva milenar.<\/strong> J\u00e1 os riscos geol\u00f3gicos na constru\u00e7\u00e3o de uma barragem n\u00e3o podem ser previstos exatamente, por mais sondagens que se fa\u00e7am e que se tome cuidado ao escolher o local de instala\u00e7\u00e3o. Eles t\u00eam de ser avaliados e informados ao cliente, que deve fazer a correta gest\u00e3o para evitar problemas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3617\" src=\"https:\/\/abemi.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/andre.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Evitar e controlar os riscos s\u00e3o responsabilidades apenas da engenharia?<\/strong><br \/>\n<strong>AG &#8211;<\/strong> <strong>N\u00e3o, existe uma responsabilidade compartilhada entre projeto, execu\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o adianta uma engenharia perfeita se n\u00e3o tiver boa execu\u00e7\u00e3o nem uma boa constru\u00e7\u00e3o e depois falhas na opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o.<\/strong> \u00c9 como comprar o melhor carro do mercado e n\u00e3o trocar o \u00f3leo. Existem obras t\u00e3o complexas, como construir um metr\u00f4 em S\u00e3o Paulo, que precisam de uma junta de not\u00e1veis para discutir o assunto. \u00c9 como tratar uma doen\u00e7a rara, juntam-se os melhores m\u00e9dicos para discutir. Se vou construir uma barragem, ela n\u00e3o pode romper. Imagine Itaipu. Se romper, inunda Buenos Aires. Vamos evacuar Buenos Aires? Uma obra tem de ser feita corretamente para aguentar as intemp\u00e9ries e t\u00eam de ser realizadas a correta opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o. Tudo isso junto n\u00e3o \u00e9 algo simples.<\/p>\n<p><strong>NA &#8211; O que um acidente ambiental pode ensinar?<\/strong><br \/>\n<strong>AG &#8211;<\/strong> O mundo vai aprendendo com os erros. O tsunami que inundou a usina at\u00f4mica no Jap\u00e3o causando vazamento de subst\u00e2ncias perigosas mostrou que n\u00e3o adianta ter sistemas redundantes, se vem um desastre ambiental e destr\u00f3i tudo. Daquele dia em diante, foram criados novos padr\u00f5es mundiais. Falando de Brasil, tamb\u00e9m \u00e9 preciso ir a fundo para determinar o que aconteceu nos acidentes das barragens de rejeitos. Esse tipo de obra d\u00e1 avisos por meio de instrumentos que controlam a barragem. \u00c9 preciso uma investiga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, sem imediatismo. Quando um avi\u00e3o cai, o rep\u00f3rter j\u00e1 quer saber na hora por que caiu. N\u00e3o \u00e9 assim. At\u00e9 um tatu pode derrubar uma barragem de terra. Ele faz um buraco, anda um quil\u00f4metro e come\u00e7a a percolar a \u00e1gua, podendo levar ao rompimento.<\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Nesse cen\u00e1rio, quais os principais desafios da engenharia brasileira atualmente?<\/strong><br \/>\n<strong>AG &#8211;<\/strong> O maior desafio \u00e9 \u201cvender\u201d a engenharia, mostrar seu valor para a sociedade. Quando o engenheiro fala que tem risco, tem de ser respeitado, da mesma forma que o m\u00e9dico quando fala: se o senhor n\u00e3o fizer isso, vai morrer. <strong>Eu acredito que ningu\u00e9m faz um leil\u00e3o eletr\u00f4nico para escolher quem vai operar seu cora\u00e7\u00e3o. Eu, pessoalmente, iria querer algu\u00e9m com muita experi\u00eancia.<\/strong> N\u00e3o adianta simplificar o assunto. A engenharia tem de ser respeitada e exercida antes, durante e depois. O ciclo das obras \u00e9 longo. Insisto que n\u00e3o adianta ter \u00f3timo projeto, mas execu\u00e7\u00e3o ruim. N\u00e3o adianta \u00f3tima execu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ter ningu\u00e9m para cuidar da opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o. \u00c9 um conjunto que se complementa.<\/p>\n<p><strong><em>NA &#8211; Quais as dificuldades para vender a engenharia? <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>AG &#8211;<\/strong> \u00c9 muito dif\u00edcil para a sociedade compreender algumas coisas, mas ela precisa amadurecer. A maior consci\u00eancia ambiental da sociedade, dos governos e das empresas \u00e9 muito positiva, mas a gente ouve coment\u00e1rios ing\u00eanuos.<strong> Uma grande obra de engenharia traz, sim, impactos socioambientais, que precisam ser discutidos e exigem decis\u00f5es complexas.<\/strong> Se eu falar com a pessoa que vai ser desalojada, se eu falar com o \u00edndio, eles n\u00e3o querem a barragem da hidrel\u00e9trica. Mas se eu falar com a pessoa que n\u00e3o vai ter \u00e1gua quente no inverno, ela quer a barragem.<\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Como conciliar essas demandas t\u00e3o diferentes?<\/strong><\/p>\n<p>AG &#8211; N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar o equil\u00edbrio entre meio ambiente, lucro, necessidade da popula\u00e7\u00e3o. Por isso, a obten\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as ambientais inclui negocia\u00e7\u00f5es t\u00e3o complexas. Al\u00e9m disso, quando eu fa\u00e7o a obra, tenho de replantar e reconstruir tudo onde fiz a barragem, tenho de pensar na comunidade, nos peixes, se o rio \u00e9 naveg\u00e1vel, nos \u00edndios. O respeito ao meio ambiente tem um custo, uma compet\u00eancia, e isso precisa ser remunerado. <strong>As empresas t\u00eam de oferecer toda uma estrutura, uma engenharia complexa, mas o mercado quer contratar a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o pelo menor pre\u00e7o. A conta n\u00e3o fecha.<\/strong><\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Como \u00e9 poss\u00edvel as empresas de engenharia e projetos manterem a competitividade diante de tantas obriga\u00e7\u00f5es, que elevaram seus custos internos? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AG &#8211;<\/strong> Vinte anos atr\u00e1s, o foco estava apenas em pre\u00e7o, prazo e qualidade. Agora, temos de pensar no meio ambiente, na sociedade, nos funcion\u00e1rios, nos fornecedores, nos acionistas. A empresa tem de dar lucro, mas n\u00e3o pode prejudicar a sociedade e o meio ambiente. Isso mudou o conceito de custo da obra, que deixou de ser apenas o custo de constru\u00e7\u00e3o e ampliou-se para o custo de vida do empreendimento. Brincando, eu digo que n\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o se possa fazer pior e um pouco mais barato. <strong>O desafio hoje \u00e9 encontrar um equil\u00edbrio m\u00e1gico entre pre\u00e7o, prazo, seguran\u00e7a, qualidade e meio ambiente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>NA &#8211; Quais outros desafios a engenharia brasileira enfrenta? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AG &#8211;<\/strong> Infelizmente, as grandes empresas se envolveram em esc\u00e2ndalos e est\u00e3o sumindo do mercado. Isso est\u00e1 completamente certo. As coisas irregulares n\u00e3o podem continuar. <strong>Mas, al\u00e9m disso, h\u00e1 uma paralisa\u00e7\u00e3o geral de obras no pa\u00eds, e os pequenos e m\u00e9dios escrit\u00f3rios de engenharia mal conseguem sobreviver.<\/strong> Muitos fecharam. A compet\u00eancia que as grandes empresas tinham de fazer grandes obras se perdeu. Vai ser um desafio enorme reconstruir essas compet\u00eancias, na hora em que o pa\u00eds retomar os investimentos. Alguns tipos de obra s\u00e3o muitos complexos, como construir um metr\u00f4 em S\u00e3o Paulo ou uma hidrel\u00e9trica. N\u00e3o s\u00e3o commodities.<\/p>\n<p><strong><em>Editora Conte\u00fado\/Abgail Cardoso<\/em><\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os desastres ambientais na \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o colocaram luz e despertaram a aten\u00e7\u00e3o da sociedade para os riscos ambientais. Como evitar esse tipo de cat\u00e1strofe? De quem \u00e9 a culpa? 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