A engenharia brasileira tem de ser valorizada e respeitada, afirma André Glogowsky

A engenharia brasileira tem de ser valorizada e respeitada, afirma André Glogowsky

Os desastres ambientais na área de mineração colocaram luz e despertaram a atenção da sociedade para os riscos ambientais. Como evitar esse tipo de catástrofe? De quem é a culpa?
Para André Glogowsky, membro do conselho da HTB – grupo que controla as empresas Tedesco, Kern, HTB Fit, HTA e PW Construções –, em casos como esses é preciso uma investigação rigorosa, mas sem imediatismo. “Quando um avião cai, o repórter já quer saber na hora por que caiu. Não é assim”, compara. Na entrevista a seguir, o executivo analisa os desafios ligados à gestão de riscos e da engenharia.

Newsletter ABEMI – Como minimizar os riscos socioambientais de grandes obras?
André Glogowsky – Primeiro, temos de conhecê-los e quantificá-los, o que pode ser feito por meio da elaboração de uma matriz de riscos, que tem de ser compartilhada entre todos os envolvidos: projetista, construtora, cliente, governo, seguradora. Conforme a complexidade da obra, a matriz chega a ter 60 tipos de riscos, que têm de ser gerenciados. Cuidados no projeto e na execução são fundamentais, mas não são suficientes. Grandes obras, como hidrelétricas, barragens, metrôs, são obras extremamente complexas e de longo ciclo de vida, ultrapassando os 50 anos, podendo chegar a 100 anos. Precisam seguir as normas técnicas do país e resistir ao tempo e ao uso.

NA – Como garantir essa resistência ao longo de tanto tempo?
AG – Para isso, existem as normas técnicas para cada tipo de obra, e cada tipo de material tem seu coeficiente específico de segurança. Para uma ponte, por exemplo, são normas de resistência do concreto para suportar o vento e a carga. Numa hidrelétrica, temos de construir uma barragem que suporte a maior chuva dos últimos mil anos. Para calcular esse tipo de risco, consideramos o histórico de estatísticas de 119 anos de chuva, desde 1900, e extrapolamos para a maior chuva milenar. Já os riscos geológicos na construção de uma barragem não podem ser previstos exatamente, por mais sondagens que se façam e que se tome cuidado ao escolher o local de instalação. Eles têm de ser avaliados e informados ao cliente, que deve fazer a correta gestão para evitar problemas.

NA – Evitar e controlar os riscos são responsabilidades apenas da engenharia?
AG – Não, existe uma responsabilidade compartilhada entre projeto, execução, operação e manutenção. Não adianta uma engenharia perfeita se não tiver boa execução nem uma boa construção e depois falhas na operação e manutenção. É como comprar o melhor carro do mercado e não trocar o óleo. Existem obras tão complexas, como construir um metrô em São Paulo, que precisam de uma junta de notáveis para discutir o assunto. É como tratar uma doença rara, juntam-se os melhores médicos para discutir. Se vou construir uma barragem, ela não pode romper. Imagine Itaipu. Se romper, inunda Buenos Aires. Vamos evacuar Buenos Aires? Uma obra tem de ser feita corretamente para aguentar as intempéries e têm de ser realizadas a correta operação e manutenção. Tudo isso junto não é algo simples.

NA – O que um acidente ambiental pode ensinar?
AG – O mundo vai aprendendo com os erros. O tsunami que inundou a usina atômica no Japão causando vazamento de substâncias perigosas mostrou que não adianta ter sistemas redundantes, se vem um desastre ambiental e destrói tudo. Daquele dia em diante, foram criados novos padrões mundiais. Falando de Brasil, também é preciso ir a fundo para determinar o que aconteceu nos acidentes das barragens de rejeitos. Esse tipo de obra dá avisos por meio de instrumentos que controlam a barragem. É preciso uma investigação séria, sem imediatismo. Quando um avião cai, o repórter já quer saber na hora por que caiu. Não é assim. Até um tatu pode derrubar uma barragem de terra. Ele faz um buraco, anda um quilômetro e começa a percolar a água, podendo levar ao rompimento.

NA – Nesse cenário, quais os principais desafios da engenharia brasileira atualmente?
AG – O maior desafio é “vender” a engenharia, mostrar seu valor para a sociedade. Quando o engenheiro fala que tem risco, tem de ser respeitado, da mesma forma que o médico quando fala: se o senhor não fizer isso, vai morrer. Eu acredito que ninguém faz um leilão eletrônico para escolher quem vai operar seu coração. Eu, pessoalmente, iria querer alguém com muita experiência. Não adianta simplificar o assunto. A engenharia tem de ser respeitada e exercida antes, durante e depois. O ciclo das obras é longo. Insisto que não adianta ter ótimo projeto, mas execução ruim. Não adianta ótima execução e não ter ninguém para cuidar da operação e manutenção. É um conjunto que se complementa.

NA – Quais as dificuldades para vender a engenharia?

AG – É muito difícil para a sociedade compreender algumas coisas, mas ela precisa amadurecer. A maior consciência ambiental da sociedade, dos governos e das empresas é muito positiva, mas a gente ouve comentários ingênuos. Uma grande obra de engenharia traz, sim, impactos socioambientais, que precisam ser discutidos e exigem decisões complexas. Se eu falar com a pessoa que vai ser desalojada, se eu falar com o índio, eles não querem a barragem da hidrelétrica. Mas se eu falar com a pessoa que não vai ter água quente no inverno, ela quer a barragem.

NA – Como conciliar essas demandas tão diferentes?

AG – Não é fácil encontrar o equilíbrio entre meio ambiente, lucro, necessidade da população. Por isso, a obtenção de licenças ambientais inclui negociações tão complexas. Além disso, quando eu faço a obra, tenho de replantar e reconstruir tudo onde fiz a barragem, tenho de pensar na comunidade, nos peixes, se o rio é navegável, nos índios. O respeito ao meio ambiente tem um custo, uma competência, e isso precisa ser remunerado. As empresas têm de oferecer toda uma estrutura, uma engenharia complexa, mas o mercado quer contratar a prestação de serviço pelo menor preço. A conta não fecha.

NA – Como é possível as empresas de engenharia e projetos manterem a competitividade diante de tantas obrigações, que elevaram seus custos internos?

AG – Vinte anos atrás, o foco estava apenas em preço, prazo e qualidade. Agora, temos de pensar no meio ambiente, na sociedade, nos funcionários, nos fornecedores, nos acionistas. A empresa tem de dar lucro, mas não pode prejudicar a sociedade e o meio ambiente. Isso mudou o conceito de custo da obra, que deixou de ser apenas o custo de construção e ampliou-se para o custo de vida do empreendimento. Brincando, eu digo que não há nada que não se possa fazer pior e um pouco mais barato. O desafio hoje é encontrar um equilíbrio mágico entre preço, prazo, segurança, qualidade e meio ambiente.

NA – Quais outros desafios a engenharia brasileira enfrenta?

AG – Infelizmente, as grandes empresas se envolveram em escândalos e estão sumindo do mercado. Isso está completamente certo. As coisas irregulares não podem continuar. Mas, além disso, há uma paralisação geral de obras no país, e os pequenos e médios escritórios de engenharia mal conseguem sobreviver. Muitos fecharam. A competência que as grandes empresas tinham de fazer grandes obras se perdeu. Vai ser um desafio enorme reconstruir essas competências, na hora em que o país retomar os investimentos. Alguns tipos de obra são muitos complexos, como construir um metrô em São Paulo ou uma hidrelétrica. Não são commodities.

Editora Conteúdo/Abgail Cardoso

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