Ex-presidente da ABEMI acredita que a engenharia brasileira precisa resgatar sua saúde e sua moral

Ex-presidente da ABEMI acredita que a engenharia brasileira precisa resgatar sua saúde e sua moral

A cratera na construção da estação Pinheiros do metrô há 12 anos e os diversos viadutos que cederam em São Paulo, o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana, há três anos, e a catástrofe semelhante que acaba de acontecer em Brumadinho são situações que deixam os brasileiros perplexos. Os viadutos na capital paulista não fizeram vítimas, felizmente, mas o potencial de danos era enorme. Chamada a executar projetos grandiosos no exterior no passado, a engenharia brasileira entrou em crise? O que está acontecendo com o setor?

O engenheiro Roberto Mendonça, ex-presidente da Setal e ex-presidente da ABEMI, analisa a situação e fala sobre o desafio de resgatar a saúde da engenharia nacional.

 

Newsletter ABEMIEm que medida a engenharia brasileira é responsável por tragédias como a de Mariana e Brumadinho e os problemas nas pontes e viadutos em São Paulo, só para citar alguns exemplos?

Roberto Mendonça – A engenharia tem grande responsabilidade em todos esses casos. Infelizmente, nossa engenharia, que já foi um orgulho do Brasil até a década de 80, acabou se desvirtualizando, se enfraquecendo muito. Hoje temos uma engenharia que está caindo num abismo e não conseguimos nem vislumbrar o fundo desse abismo. Em todas essas tragédias, a engenharia é cúmplice, sua participação é muito forte.

 

NAComo se deu esse enfraquecimento?

RM – Tem uma série de fatores. Um dos mais importantes foi muito bem colocado pelo blogueiro de inteligência estratégica Jorge Hori. Ele diz que a engenharia acabou caindo nas mãos de administradores corruptos, foi se ligando a isso e perdendo sua moral. Segundo ele, os administradores públicos foram cada vez mais fazendo licitações pelo menor preço – e isso ocorre também nas empresas privadas – sem olhar, realmente, se aquele preço era compatível com o custo e com o nível do serviço. Aí começou-se a fazer a seleção pelos piores. E os piores foram se multiplicando e tendo seus filhotes. O auge, nos últimos 20 anos, foi mostrado pela Operação Lava Jato. Ainda segundo Jorge Hori, no passado, era algo discreto, mas virou um negócio chocante para toda a sociedade, e os únicos que estão sendo culpados são as empresas de engenharia e os engenheiros em geral.

 

NAQuem mais pode ser responsabilizado por essa situação?

RMAs empresas de engenharia e os engenheiros têm uma parcela importante de culpa, mas não são os únicos. Existe uma prática no Brasil, que é a concussão. É preciso tomar consciência disso para poder resolver esse problema. Concussão é quando o administrador público, que tem o poder, exige que as empresas se submetam a pagar propina e participar de campanhas eleitorais. Isso não é uma coisa de hoje, mas aparece só que as empresas de engenharia corrompem os funcionários públicos. Elas têm culpa nisso, mais por deixar isso acontecer.

 

NAO que esse cenário revela?

RMDemonstra um fracasso conjunto da administração pública com as empresas de engenharia. No caso da ponte que dá acesso à Via Dutra, interditada em janeiro, o projeto determinava que a camada máxima de asfalto seria de 10 cm. Hoje essa camada está em 30 cm, aviltando o projeto, uma situação que não poderia ser feita de jeito nenhum. A engenharia tem culpa nesse aspecto, porque é um problema técnico. Essa ponte teria de ter um manual de manutenção e um manual de operação. Sobrecarregaram a ponte fora dos limites do projeto, sobrepondo camadas de asfalto para consertar buracos da maneira errada, mas mais barata. Os administradores públicos também têm uma participação importantíssima nesse processo. O Brasil e a engenharia estão doentes, mas têm condições de se restabelecer.

 

NAQual seria a melhor solução?

RMAs instituições de engenheiros têm de pegar firmes uma bandeira de restabelecer a engenharia no Brasil. Temos potencial, competência técnica e precisamos nos livrar desses vícios que acabamos adquirindo e restabelecer a ordem dentro do setor. O melhor remédio é trazer a verdade. A engenharia tem participação nesses acidentes, mas não está sozinha. A prisão dos engenheiros que emitiram o laudo para a barragem de Brumadinho, que são especialistas e pertencem a uma empresa tecnicamente responsável, representa a prisão da própria engenharia.

 

NAO que a tragédia de Brumadinho ensina?

RM – Ocorreu um grande erro com a participação de engenheiros, que foi a construção do refeitório e do escritório a jusante da barragem. O presidente do Instituto de Engenharia, Eduardo Lafraia, coloca muito bem, que nós, como engenheiros, precisamos cogitar todos os riscos e agir para que eles não aconteçam. É preciso parar de pensar que algo não vai acontecer só porque o risco é baixo. O vice-presidente do Instituto de Engenharia, Victor Brecheret, também participa dessa ideia. Se existe um risco, ele precisa ser analisado.

 

NAComo é possível garantir isso?

RM – É previsível que a sociedade erre e faça coisas erradas. E é por isso que temos o governo, a polícia, os juízes e órgãos de aprovação dos projetos. Quem é responsável por impedir que a população faça coisas erradas é o governo.

 

NAO principal problema de Brumadinho, então, foi na aprovação do projeto?

RMSem dúvida, houve um erro na engenharia. O refeitório não poderia ser feito naquele local. Mas quem mais falhou foi o governo ao aprovar aquele local para essa construção. Todas as pessoas que foram lá fiscalizar a obra têm sua responsabilidade. Hoje todos jogam pedra na companhia porque ela fez essa imbecilidade, mas ninguém apontou isso durante o projeto, a construção, a aprovação da planta e durante as visitas que o governo fez à barragem de Brumadinho. Devem ter recebido dezenas, talvez centenas de visitas de pessoas do governo e de ongs, mas ninguém apontou isso como um problema. Se esse escritório fosse em outro local, essa tragédia seria completamente diferente. Agora, nós, engenheiros, precisamos pegar uma bandeira de que nós temos competência, que nós erramos, mas podemos melhorar.

 

NAO que os engenheiros podem fazer nesses casos?

RM Devem mostrar os riscos e ter a coragem de dizer não, quando a decisão tomada não é a coisa certa a fazer.

 

NAE se eventualmente eles mostrarem os riscos numa situação dessas, mas não forem ouvidos…

RMDeveríamos ter uma espécie de disque-denúncia na área de engenharia. Talvez diante de um administrador muito forte, muito impositivo, o engenheiro se submeta a fazer coisas indevidas. Ele está errado, mas o chefe dele também está errado. Essa doença é que nós precisamos corrigir. O engenheiro tem de ter a moral de dizer não e, se for o caso, denunciar o chefe. Ele está errado na hora em que ele cede à pressão econômica, à pressão do chefe dele.

 

RAComo seria esse disque-denúncia?

RMDeveria ser um órgão público ou junto com a iniciativa privada, com o Instituto de Engenharia ou uma instituição como a ABEMI. Precisamos criar algo novo, diferente, que possa evitar esses absurdos que estamos vendo a toda hora.

 

NAQue outras situações chamam a atenção no caso de Brumadinho?

RM – O fato de o alarme não ter funcionado. Se o alarme tivesse soado e se o refeitório não fosse abaixo da barragem, nós estaríamos falando sobre outro tipo de acidente. O alarme não funcionar é uma falha de engenharia. A barragem foi construída há 50 anos com a tecnologia da época. Isso não tem como mudar. Mas o alarme precisa funcionar. Existem tecnologias conhecidas, fáceis, baratas para isso. Deveria ter uma redundância no alarme, com acionamento automático e, se falhar, com o alerta sendo emitido a partir do comando de uma pessoa, que, a distância, poderia tomar conta de dezenas de barragens ao mesmo tempo.

 

RAComo o senhor avalia a formação dos engenheiros brasileiros?

RM – Eu acho que a formação dos engenheiros é ótima. Formamos excelentes engenheiros. Só que a moral, o enfrentamento com as instituições é que os engenheiros não estão sabendo fazer. Em outras profissões, como na medicina, se você fala para o médico “Eu quero que você me opere de uma forma diferente”, ele vai falar não. Não vai operar em desacordo com o protocolo. O engenheiro tem de fazer a mesma coisa. O procedimento técnico vem em primeiro lugar, é fundamental. Os engenheiros fizeram um juramento exatamente prometendo cumprir o seu dever, não se deixando cegar pelo brilho excessivo da tecnologia e fazendo um trabalho para o bem do homem. É o conhecimento científico a serviço do conforto e desenvolvimento da humanidade. Precisamos seguir o nosso juramento. Não podemos transigir.

 

RAComo o corte de custos pode afetar o desempenho da engenharia?

RM – Esse também é um problema. Muitas vezes, o corte de custos é exagerado. Buscar eficiência é importante, mas não podemos permitir que isso afete a segurança.

Editora Conteúdo/Abgail Cardoso

 

 

 

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