A aprovação pelo Senado da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos coloca o Brasil diante de uma oportunidade que vai muito além da mineração. O país possui recursos fundamentais para a transição energética e para algumas das cadeias industriais mais estratégicas do mundo. O desafio é transformar essa vantagem geológica em investimento, tecnologia e capacidade industrial.
O projeto aprovado pelo Senado, agora encaminhado à sanção presidencial, prevê até R$ 7 bilhões em incentivos. Desse total, R$ 2 bilhões serão destinados ao Fundo Garantidor da Atividade Mineral e R$ 5 bilhões ao beneficiamento e à transformação desses minerais no território nacional. Esse direcionamento é particularmente importante. O Brasil não deve se limitar à condição de fornecedor de matérias-primas. A oportunidade está em avançar na cadeia de valor, ampliando o processamento e a transformação industrial no país.
Reservas mundiais
Potencial não falta. O Brasil ocupa posição de destaque nas reservas mundiais de minerais estratégicos e está entre os países com maiores reservas de terras raras e lítio. Além disso, segundo dados do IBRAM apresentados em recente webinar sobre engenharia e mineração, os recursos previstos para projetos de minerais críticos no país superam US$ 20 bilhões até 2029, com investimentos em cobre, níquel, terras raras, lítio e outros minerais. A demanda também tende a crescer com a transição energética. Um veículo elétrico requer cerca de seis vezes mais minerais que um veículo convencional, enquanto um parque eólico terrestre pode consumir até nove vezes mais recursos minerais que uma usina a gás.
É nesse cenário que a engenharia industrial assume papel estratégico. Entre uma reserva mineral e uma operação competitiva existe uma extensa cadeia de projetos: estudos de viabilidade, engenharia conceitual, básica e detalhada, plantas de beneficiamento e processamento, automação, infraestrutura, construção, montagem e comissionamento.
Mais do que implantar empreendimentos, a engenharia contribui diretamente para sua viabilidade econômica. A engenharia de valor permite reduzir CAPEX, otimizar processos, antecipar a entrada em operação e diminuir o consumo de recursos. Em projetos recentes apresentados pelo setor, revisões de engenharia produziram reduções expressivas nos quantitativos de estruturas metálicas, concreto e movimentação de terra, com reflexos também sobre prazo, riscos de campo, emissões e consumo de água.
Ainda existem gargalos. O baixo nível de mapeamento geológico, a complexidade do licenciamento e a necessidade de maior previsibilidade regulatória continuam limitando investimentos. A nova política pode contribuir para mudar esse ambiente, sobretudo se os mecanismos de financiamento e incentivo à transformação industrial efetivamente saírem do papel.
O Brasil tem a possibilidade de deixar de ser apenas fornecedor de recursos minerais e ampliar sua presença em cadeias de maior valor agregado. Isso significa oportunidades para empresas de engenharia, fabricantes de equipamentos, tecnologia, automação, construção e montagem, além da geração de conhecimento e empregos qualificados.
Temos os recursos minerais e uma janela de oportunidade aberta pela transição energética. Transformá-los em desenvolvimento industrial dependerá de investimento, tecnologia e capacidade de execução. E é justamente nesse ponto que a engenharia brasileira pode fazer a diferença.

Nelson Romano, presidente da ABEMI