Os impactos da pandemia no setor de óleo e gás e as oportunidades para os próximos anos

Os impactos da pandemia no setor de óleo e gás e as oportunidades para os próximos anos

A inesperada e contundente crise do novo coronavírus mudou a trajetória de recuperação do mercado de óleo e gás. Desde meados de 2019, o setor vinha num aquecimento gradativo, que já estava beneficiando o setor de engenharia e projetos, com maior número de propostas saindo do papel.

“O setor saia de um trauma, que foi a Lava Jato. Os projetos estavam voltando. A pandemia deu uma paralisada, mas esperamos que, após o choque inicial, comece a ocorrer uma recuperação”, afirma Marcelo Bonilha, presidente da EBSE Engenharia de Soluções, que fabrica equipamentos e tubos duplex de aço especial.

Ele destaca duas licitações importantes lançadas, Itapu e Mero 4, além de Mero 3, que já tem ganhador definido, uma empresa da Malásia que fará o afretamento de um FPSO para a Petrobras. “Juntos, esses projetos somam R$ 500 milhões. Esperamos que eles efetivamente aconteçam e que sejam cumpridas as regras de conteúdo local para movimentar o setor. São projetos que demandam mão de obra intensa e vão gerar empregos qualificados para brasileiros”, diz Bonilha.

Falando de sua empresa especificamente, Bonilha informa que a pandemia não a afetou tão fortemente. Tomando os cuidados sanitários recomendados pelas autoridades de saúde, com intensificação da higienização, distanciamento no transporte e nos refeitórios, uso de máscaras, home office para funções possíveis e funcionários do grupo de risco, entre outras medidas, a empresa manteve os projetos em andamento. “Temos seis projetos rodando, três no setor de óleo e gás, dois em papel e celulose e um em mineração”, afirma Bonilha.

Em sua opinião, um dos desafios que atinge não só óleo e gás, mas todas as empresas de grande porte, é a falta e o alto custo das linhas de crédito de capital de giro. “A intervenção do governo foi voltada apenas para micro e pequenas empresas. Linhas de capital de giro, quando existem, têm juros escorchantes”, observa Bonilha.

Bonilha, da EBSE: ” Um dos desafios das empresas do setor de óleo e gás  é a falta e o alto custo das linhas de crédito de capital de giro”

Projetos em stand by

Diretor da ABEMI e presidente da Fluxo Soluções Integradas, Hideo Hama observa que, com a pandemia, muitas empresas tomaram medidas para otimizar o capital de giro, começando pela Petrobras. “Em sua carta ao mercado em 26 de março, a Petrobras informou a redução de investimentos da ordem de US$ 3,5 bilhões em 2020, principalmente em atividades exploratórias, interligação de poços, construção de instalações de produção e refino. Isso teve reflexos importantes no setor”, afirma Hideo.

Com essa decisão imposta pela pandemia, a realidade de 2020 mostrou-se bem diferente da expectativa. Segundo Hideo, em 2019, a Petrobras mostrava uma grande recuperação no seu alavancamento de dívidas e, em dois anos, poderia alcançar números iguais aos das grandes empresas mundiais de óleo e gás. Após uma fase ruim, em que a Petrobras priorizou os afretamentos, o mercado brasileiro de construção de FPSOs vislumbrava, num futuro próximo, a mudança para o contrato tipo BOT, e já se falava no retorno ao contrato EPC.

O mercado de gás natural também dava sinais positivos, prevendo-se crescimento e autossuficiência, tornando indispensáveis os projetos Rota 4 e Rota 4A, para ligar o pré-sal da Bacia de Santos ao continente. Adicionalmente, o plano de desinvestimentos da Petrobras deveria gerar projetos de desgargalamento e demandas para as empresas de engenharia, equipamentos e montagens.

Ainda segundo Hideo, existiam oportunidades derivadas das vendas de campos onshore da Petrobras, cujos compradores estão com projetos Well to Wire, que usam o gás dos próprios campos para gerar energia em termoelétrica. Há também projetos FSRU to Wire, em que uma unidade regaseificadora flutuante ancorada num terminal gera energia e a envia para o wire, além de inúmeros projetos de implantações e ampliações de terminais privados marítimos e terrestres.

“Finalmente, não podemos nos esquecer dos investimentos que estavam ocorrendo em campos terrestres onshore vendidos pela Petrobras e de projetos na área de refino, com unidades menores e moduladas. Enfim, era unânime a opinião de que as perspectivas que se avizinhavam eram boas, graças às vitórias alcançadas na área econômica do governo, com perspectivas boas com relação às aprovações de reformas tributárias, juros baixos, perspectivas de controle fiscal”, analisa Hideo.

 

Desafios e oportunidades

Na Fluxo Soluções Integradas a realidade de 2020 está bem diferente do esperado

Entre os desafios, Hideo cita a continuidade dos projetos e das regras vigentes na contratação. “Neste momento de dificuldade de caixa, os contratantes não podem otimizar somente o seu lado do caixa. O rompimento unilateral faz estragos e aumenta o desemprego. É importantíssimo que não se posterguem os projetos em fase de contratação. As grandes empresas e o governo não podem permitir o esfacelamento das empresas de apoio, pois será trágico no recomeço das atividades em geral. A Petrobras não pode aumentar o nível de cortes já anunciados e precisa concluir os projetos em andamento”, defende.

O executivo lembra que a ABEMI, juntamente com outras associações ligadas ao segmento, tem endereçado ao governo e à Petrobras as demandas e dificuldades da cadeia para evitar mais desemprego. “Temos de fazer esforços conjuntos para a redução do prazo para o retorno da normalidade. O alongamento deste tempo é inversamente proporcional ao fôlego das nossas reservas”, alerta.

As oportunidades devem vir do novo mapa da Exploração e Produção. A não obrigatoriedade de seguir as regras do contrato de partilha nos leilões do pré-sal atraiu ao Brasil grandes empresas operadoras de óleo e gás. Hoje já são 42 players, muitos deles bastante eficientes nas descobertas e desenvolvimentos dos campos.

Sejam antigos players ou novos entrantes, essas empresas vão precisar de serviços de engenharia e apoio. “O Novo Marco do Gás, por exemplo, que deve reduzir de 40% a 50% os preços atuais do gás, vai alterar a matriz energética nacional. A tarifa vermelha deixará de existir. Os passos básicos estão sendo dados, com a venda das principais transportadoras de gás e com a redução da participação acionária da Gaspetro nas empresas de distribuição”, prevê Hideo.

Ele destaca que haverá, por exemplo, uma enorme quantidade de projetos de termoelétricas e de substituição de diesel por gás. Hospitais, indústrias, hotéis, condomínios, shoppings centers, clubes e conglomerados passarão a usar gás para gerar frio e calor, além de energia. “Será um manancial de negócios. Isso sem falar em megaobras, como as construções dos gasodutos de mais de 300 km, que ligarão a região do pré-sal da Bacia de Santos a São Paulo. O Estado mais industrializado do país terá gás na sua porta”, observa.

Ainda como consequência da Covid-19, Hideo acredita que empresas que escolheram a China como país para fabricar seus produtos começam a rever essa escolha. “Acredito numa busca de países com filosofias e costumes mais próximos dos ocidentais. O Brasil é um candidato potencial, pela abundância de recursos, grande quantidade de imigrantes e mão de obra disponível. Seria importante ter um fundo soberano nos moldes do que ocorreu na Noruega, com base nos royalties do petróleo, que poderia ajudar na reconstrução da indústria de base nacional e na educação”, conclui Hideo.

Perspectivas para os próximos anos

Com apenas alguns ajustes de escopo e prazo, os projetos que estavam sendo executados pela Engecampo Engenharia Industrial foram mantidos, preservando o fluxo de caixa e os empregos. “Temos um saldo contratual de R$ 180 milhões em projetos em execução até o fim do ano. Nossa preocupação é recompor a carteira de projetos para o próximo ano”, afirma o diretor de desenvolvimento de negócios, José Rodrigues.

Segundo ele, a redução dos investimentos foi drástica no setor de óleo e gás onshore, que é onde a empresa gaúcha, que tem mais de 30 anos de mercado, tem maior atuação. “As empresas dizem que os investimentos copex estão paralisados e não tem data para voltar, não apenas em decorrência da Covid-19, mas também da crise internacional do petróleo. Existem algumas licitações no pipeline, mas muito provavelmente a assinatura desses contratos deve ser adiada”, afirma Rodrigues.

No setor de energia, a previsão é de queda de 10% no ano. Diante desse cenário, as expectativas positivas podem estar em outros setores. Em energia renovável há projetos anunciados e em execução. Na mineração, há uma escassez de minério de ferro e o preço está em alta, favorecendo o aquecimento e consequentemente os investimentos em expansão.

José Rodrigues lembra também que a empresa precisou tomar medidas para proteger os funcionários que trabalham nas obras e nos escritórios. Nas obras, as medidas envolvem maior espaçamento das pessoas nos transportes, reforço no uso de equipamento de proteção individual, oferta de álcool em gel, instalação de túneis de higienização, definição de protocolos de rastreamento e, principalmente, ações de conscientização e treinamento.

Pessoas do grupo de risco das obras e equipes de escritório foram colocados em home office, sempre que possível. Os casos de contaminação por Covid-19 foram rapidamente identificados pela equipe de saúde e estão sendo acompanhados pela empresa, que presta apoio à família. “Estamos muito comprometidos com ações preventivas”, conclui José Rodrigues.

Editora Conteúdo/Abgail Cardoso

 

 

 

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