Os bons problemas do Novo Mercado de Gás

Os bons problemas do Novo Mercado de Gás

O Brasil deu passo histórico ao lançar, em 2019, o Novo Mercado de Gás (NMG). Energético subutilizado, para dizer o mínimo, seu potencial parece que finalmente vai se realizar. Há condições de existência ainda sendo construídas, como a aprovação do PL 6407/13, a implantação da nova regulação federal, pela ANP, e, na sequência, as novas regulações estaduais. A velocidade destes avanços determinará o sucesso e a velocidade de materialização do NMG.

As externalidades positivas decorrentes dos avanços do NMG trarão também desafios para alguns setores econômicos. São problemas que há muito o país deseja e precisa ter. São bons problemas a serem resolvidos.

Um deles é a harmonização entre as regulações estaduais e a federal. À medida que o NMG produz crescimento econômico, enfrentaremos o bom problema de estados revisitando suas regulações e políticas para trazer para si mais crescimento. Testemunharemos estados formulando políticas e regulações indutoras de mais atividade industrial associada ao gás natural. Veremos saudável disputa por aceleração de crescimento econômico e dos efeitos sociais que dele decorrem.

Outro grande bom problema é a implantação da infraestrutura necessária para o avanço e materialização do NMG. Este bom problema permeia toda o sistema produtivo de gás natural, começando nas unidades offshore de produção, passando pela infraestrutura de escoamento, processamento, transporte, distribuição e tratamento, e terminando nas novas unidades fabris consumidoras de gás.

A solução desse bom problema passa por parcela expressiva das empresas brasileiras de engenharia e construção. São elas que vão construir ou modificar os chamados módulos das unidades offshore de produção, para que o gás seja exportado para o continente em vez de reinjetado nos reservatórios de onde foi extraído. São módulos complexos, que precisam tratar o gás natural e reinjetar apenas o CO2 que está presente nas correntes de gás natural extraídas do pré-sal. O CO2, ao ser reinjetado nos reservatórios, promove aumento de produção de óleo e fica retido nas formações rochosas de onde os hidrocarbonetos são extraídos. Há assim dois efeitos positivos obtidos simultaneamente.

A quantidade adicional de gás a ser escoado requer novas tubulações submarinas, interligando as unidades offshore ao continente. São tubulações de 200 a 300 km de comprimento, com diâmetros de 20 a 30 polegadas. As atuais rotas 1, 2 e 3 (esta ainda em construção) não serão suficientes para as vazões adicionais. Eis outro bom problema a ser resolvido pela atividade de engenharia e construção.

Para levar o gás para locais muito distantes, por exemplo as regiões amazônicas, existe a alternativa de se escoar a vazão adicional por meio de embarcações em que o gás estaria comprimido a 300 bar ou liquefeito. Essa alternativa requer que empresas de engenharia e construção, neste caso especializadas também no segmento naval, construam embarcações com características adequadas a essa utilização. Esse bom problema pode contribuir para revitalizar a indústria naval local.

O gás do pré-sal, ao chegar ao continente, precisa ser processado e tratado. Frações mais pesadas, como propano e butano, o gás de cozinha ou GLP, precisam ser separadas do metano. O excedente de GLP contribuirá para reduzir os preços internos e para exportação. O metano, agora separado e tratado, pode ser então transportado para outras regiões do país. O processamento ocorre nas Unidades de Processamento de Gás Natural, as UPGNs. As empresas de engenharia e construção terão assim de construir novas UPGNs ou expandir as existentes. Esse bom problema está na lista de desejos dessas empresas.

O gás produzido pelas UPGNs precisa ser transportado até o sistema de distribuição das cidades. O Brasil tem hoje cerca de 9.400 km de tubulações de transporte. Cerca de 1 metro por quilômetro quadrado de área (1 m/km²). A Argentina tem cerca de 6 m/km². Se o Brasil quiser ter rede de transporte de gás proporcional à do país vizinho, as empresas de engenharia e construção terão de construir cerca de 47 mil km de novas tubulações de transporte. O equivalente a 15 novos gasodutos Brasil-Bolívia.

A maior oferta de gás resultará em menores preços e mais interesse de indústrias que utilizam este insumo. Isso se aplica aos setores de vidro, cerâmica, fertilizantes, metais, mineração, siderurgia, química, geração termoelétrica entre outros. Empresas destes setores tenderão a construir novas unidades industriais ou a expandir as existentes. As empresas de engenharia e construção mais uma vez serão afetadas por esse bom problema adicional.

O NMG tem potencial para contribuições decisivas para a solução de desafios históricos de crescimento econômico, de empregos e de arrecadação do Brasil. Desafios agravados recentemente pela pandemia, da qual temos finalmente sinais inequívocos de arrefecimento. Mas a crise econômica ainda precisa de coordenação, ousadia e disposição para enfrentar os bons problemas que o NMG pode apresentar ao país. Não apenas ao setor de engenharia e construção, mas sim a um encadeamento de efeitos positivos que podem ser indutores de reindustrialização.

 

 

 

 

 

 

Telmo Ghiorzi, Diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (ABEMI), é engenheiro e doutor em políticas públicas

 

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