Ary Silviera, um dos ícones da indústria petroquímica nacional

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“Existem grandes exemplos de profissionais e ícones que precisam ser distinguidos pelo seu legado à engenharia industrial do mercado brasileiro, que atuaram ou atuam nos segmentos econômicos de Petróleo e Gás, Petroquímica e Química, Siderurgia e Mineração, Energia, Papel e Celulose e Infraestrutura”, afirma o presidente da ABEMI, Joaquim Maia. Assim, a Associação quer homenagear Ary Barbosa Silveira, “por toda competência, contribuição e liderança na implantação da indústria petroquímica no Brasil. Um profissional ímpar, cuja trajetória reflete a história do petróleo e da petroquímica no Brasil”.

Ary, é um dos grandes responsáveis, senão o maior, continua Maia, “pela implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, incluindo a central de matérias primas da COPENE, que eram fornecidas não só para todas as fábricas do complexo, como também exportava para outras indústrias petroquímicas do Brasil e do exterior.

“A sua participação no cenário industrial é notável até os tempos atuais, a exemplo da sua forte participação para que as FAFENs, unidades de operações da Petrobras, fossem arrendadas em vez fecharem.  Falar de Ary Silveira é falar de um ser humano que foi muito além de suas atribuições, para contribuir significativamente com a comunidade baiana”.

Conheça Ary Barbosa Silveira

Com 88 anos e uma memória afiada, conta em detalhes e muitas vezes em primeira pessoa episódios marcantes da história da indústria no país, com destaque para a implantação do complexo petroquímico no Polo de Camaçari. Ary Barbosa Silveira, ex-funcionário da Petrobras, esteve profundamente envolvido na criação do Polo Petroquímico de Camaçari, maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul. “Em janeiro de 1974 comecei a obra de Camaçari e junho de 1978, já com 28 empresas participantes, toda a infraestrutura estava pronta”.

Nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo, e e tem dedicação permanente à causa da indústria do petróleo. Possui graduação em Engenharia Civil pela Escola Politécnica – USP (1956), especialização em Refinação de Petróleo pela Universidade do Brasil / Petrobrás (1958) e aperfeiçoamento em Análise de Servomecanismos pela Universidade de São Paulo (1961). Trabalhou na refinaria de Cubatão, e em seguida foi para a Petrobras. Foi diretor superintendente da antiga Copene e diretor da Petroquímica da Bahia.

Dada a sua importância histórica e sua contribuição ao setor, a nossa assessoria de comunicação conversou com o engenheiro Ary para falar sobre o futuro do petróleo no Brasil, da indústria petroquímica e do polo de Camaçari, entre outros assuntos. Essa entrevista foi condensada e editada para maior clareza.

 

ABEMI – O Polo Petroquímica de Salvador já foi o maior da América Latina, contribuindo expressivamente para a economia da Bahia e do país. Mas, atualmente várias empresas encerraram suas atividades. Como o senhor, que já presidiu algumas das maiores empresas deste complexo, vê esta questão e o que pode ser feito para reverter?

 Ary SilveiraRealmente, embora ainda sendo o maior complexo químico do Hemisfério Sul, Camaçari está enfrentando dificuldades, com cerca de vinte unidades paralisadas e em demolição. As razões principais são a obsolescência de seus processos, e a escala, comparativamente a seus concorrentes mundiais. Precisamos nos concentrar em alguns pontos fortes, como a compra de inúmeros campos por investidores privados, que estão aumentando substancialmente a produção, o aumento de capacidade de refino, pela compra da RLAM pela Acelen, e o aumento da cabotagem, que reduz o problema de distanciamento dos mercados do sul e sudeste.  Precisamos estimular a instalação de empresas transformadoras  nas proximidades do Complexo.

ABEMI – Quais os pontos positivos e negativos para a desenvolvimento da engenharia da época em que esteve na gestão das grandes companhias, se comparado com o momento atual?

Ary Silveira –  A grande diferença está na tecnologia. A tecnologia está gerando mudanças drásticas em todos os mercados. Inovações alavancadas pelos avanços da inteligência artificial, automação, realidade virtual e realidade aumentada são cada vez mais comuns.  A crescente integração entre o refino e a indústria petroquímica é uma alternativa que vem contribuindo para atendimento das necessidades de petroquímicos básicos, permitindo a expansão do setor através do aproveitamento das sinergias existentes nessas atividades.

ABEMI – A Bahia tem grandes campos maduros de Petróleo e Gás, inclusive foi onde ocorreu a primeira produção de Petróleo do Brasil. Qual a sua visão em relação a privatização desses campos pela Petrobras?

Ary Silveira – Embora seja um assunto delicado, a privatização da Petrobras precisa ser discutida sem emoção, pois a maioria de suas ações já estão nas mãos de investidores privados, e a empresa precisa deixar de ter os inconvenientes de controle governamental.

 ABEMI – Como avalia a indústria petroquímica nacional na atualidade? 

Ary Silveira – É importante destacar que fazer o polo petroquímico de Camaçari, foi uma decisão exclusivamente política. E o que eu quero dizer com isso? Que o futuro da indústria nacional vai depender unicamente do que vai ocorrer com a economia brasileira. Isso porque cada vez mais a petroquímica vem substituindo produtos naturais por produtos sintéticos, porque é mais barato.

 

Depoimentos

Chefe e companheiro, por Nelson Romano (*)

Meu contato com o Dr. Ary iniciou em 1978 na Petroquímica União, onde fui chamado para ajudar na partida da Central de Matérias Primas da Copene em Camaçari exatamente na semana da Pátria. Nessa ocasião conheci uma das pessoas que marcaram minha vida profissional daí para a frente. Sua maneira simples, humana e arrojada foi algo que procurei seguir no resto da minha carreira que se estende até hoje.

O Ary como logo depois passei a chamá-lo, sua simplicidade levou a esse tratamento, embora um profissional com enorme responsabilidade pela implantação da principal unidade do Polo, não era um diretor plantado em um escritório. O Ary era também um homem de campo que todas as tardes pegava sua bicicleta e rodava pelo complexo, tomando conhecimento dos problemas enfrentados e ajudando e motivando as pessoas na busca de soluções. Me lembro bem como nos alegrávamos quando ele chegava.

Pessoalmente senti a valorização e respeito do Ary ao ser humano e ao profissional independentemente de quaisquer outros fatores. Sob seu comando na Copene, comecei emprestado pela Petroquímica União passando a chefe de operação, a Superintendente e Diretor, quando então passei a me reportar diretamente a ele.

Ary era um inovador. Numa época em que pouca importância dávamos aos computadores, o Ary implantou um sistema de tecnologia de informação na Copene, coisa rara naqueles tempos. Me lembro que era uma sala enorme cheio de armários com componentes.  Nos anos 80 já acessávamos as informações gerenciais pelo computador. Foi implantada uma política de facilitar a compra de computadores pessoais pelos funcionários. Já nessa época pudemos comprar de forma acessível o TK 80 ou CP 500, nomes que a geração dos anos 70 deve se lembrar, os primeiros modelos de PC no pais.

Gente, isso nos anos 80. Essa gestão inovadora colocou os colaboradores da Copene numa rota que influenciou a vida de todos nós abrindo uma nova visão. Mas não é só. Ary tem uma grande sensibilidade empresarial e social. Participou ativamente do COFIC, Comitê de fomento industrial de Camaçari que foi uma importante integração das empresas do polo no interesse comum.

Ary deixou a Copene no meio da década de 80 e iniciou uma nova carreira continuando a se dedicar ao desenvolvimento industrial da Bahia terra que abraçou como seu lar lá em meados de 1970. Após isso tivemos um hiato na relação até 2017, cerca de 25 anos! Na época ocupávamos a presidência da ABEMI. E o Alfredo Americano da AP Engenharia convidou o Dr. Ary para participar de uma reunião e esse talvez seja o ponto marcante desta contribuição.

Após todo esse tempo, já em outra fase da vida e como convidado, o Dr. Ary dominou a reunião com suas ideias, parecendo que o tempo não tinha passado. Encantou a todos com sua atualização, sua motivação e seu continuo esforço para o desenvolvimento industrial da Bahia.

Essa é mais uma lição que o Ary nos passa além das ditas acima, continuar a trabalhar em prol da sociedade mesmo que o tempo passe nas nossas vidas.

(*) Nelson Romano, presidente do conselho da DBR Energies  e conselheiro na ABEMI

 

Minha experiência com Ary Silveira, por Hideo Hama

Tive a felicidade de conhecer o Ary Silveira logo após a sua chegada na Bahia, onde eu havia me fixado em definitivo, em inícios de dos anos 70. Naquela ocasião, eu e mais dois empresários baianos montamos uma fábrica de caldeiraria e estruturas, na expectativa de apoiar a implantação de indústrias do Centro Industrial de Aratu (BA).

Quando o Polo Petroquímico de Camaçari (BA) se iniciava, começamos a receber solicitações de construção de vasos e estruturas metálicas. Foi numa destas discussões com clientes, que acabei conhecendo Ary, que iniciava a construção da COPENE e que teve sua inauguração em 1978.

Lembro-me como se fosse hoje, das várias visitas que Ary fez à nossa fábrica e o incentivo que sempre nos deu, permitindo com o seu apoio encher a fábrica com fabricação de vasos, colunas e estruturas. Até uma área específica para construções em aço inoxidável, montamos.

Da mesma forma como Ary nos incentivou e nos orientou, assim era a sua postura junto ao mercado baiano. Todos que naquela época pudessem trazer as suas contribuições, eram apoiados. E com isto, o Polo Petroquímico baiano, dirigido localmente por Ary, trouxe enormes benefícios para a infraestrutura baiana, com crescimento e especialização da sua mão de obra.

Ary Silveira, sempre se preocupou com o desenvolvimento da infraestrutura de apoio ao Polo, tanto na busca de tranquilidade aos seus futuros companheiros que lá iriam trabalhar, assim como no apoio ao empresariado local, incentivando-os a investirem em empresas de apoio às necessidades do Polo, presentes e futuras.

Uma outra medida interessante que me recordo, ocorreu nos primórdios da COPENE, quando Ary incentivou e buscou financiamentos para construções de moradias em Dias D’Ávila (BA). E assim mais de uma centena de famílias vindas de várias regiões do país puderam ser assentadas.

Outro fato importantíssimo, que Ary implementou, foi a criação do COFIC – Conselho de Fomento Industrial de Camaçari, com todas as empresas do Polo ali estavam representadas. Foi presidente por vários anos deste Conselho que, dentre outras ações, buscava também por melhorias para a cidade de Salvador, a exemplo da recuperação da Igreja de Conceição da Praia, além de outras intervenções na cidade, enfatizando a área cultural, como recompensa pela recepção que ela deu a todos que para aqui migraram de vários pontos do país e do exterior para a implantação do Polo.

Ary se caracterizou como um grande empresário, engenheiro e especialista, sempre disponível para aceitar convites para compor os quadros de associações de fomento a áreas de sua especialidade, entretanto a minha visão sobre ele, é que sempre buscou incentivar a mais importante matéria prima de qualquer empreendimento, que é o homem. Sempre incentivou o seu crescimento e o seu bem-estar em recompensa aos bons trabalhos. Hoje é procurado pelos segmentos da sociedade que buscam se utilizar da sua experiência consagrada.

Hideo Hama, presidente na Fluxo Soluções Integradas e diretor na ABEMI

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