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Artigo – O Brasil tem gás. O desafio agora é transformá-lo em desenvolvimento

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O Brasil vive um momento singular no mercado de gás natural. Depois de décadas investindo na exploração de petróleo e gás, especialmente com o desenvolvimento do pré-sal, o país ampliou significativamente sua capacidade de produção. O desafio agora já não é produzir mais gás, mas criar condições para que ele chegue à indústria, gere competitividade e estimule novos investimentos.

Ao longo da minha trajetória na engenharia industrial, acompanhei diversos ciclos de expansão. Em todos eles, ficou claro que grandes investimentos não acontecem apenas porque existe demanda ou disponibilidade de recursos. Eles dependem de segurança regulatória, previsibilidade e confiança para quem assume projetos de longo prazo.

O gás natural é muito mais do que uma fonte de energia. É um insumo estratégico para a indústria química, petroquímica, de fertilizantes, papel e celulose, vidro, cerâmica, mineração e tantos outros segmentos. Seu custo e sua disponibilidade influenciam diretamente a competitividade da produção industrial brasileira.

Neste contexto, a iniciativa da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) de discutir o acesso de terceiros aos gasodutos e às unidades de processamento representa um passo importante para aperfeiçoar o ambiente regulatório. Embora seja um tema técnico, seus efeitos poderão ser percebidos em toda a cadeia produtiva, ao ampliar a concorrência e favorecer novos investimentos.

A ABEMI acompanha essa agenda há vários anos. Em 2023 participou da Coalizão pela Competitividade do Gás Natural como Matéria-Prima, iniciativa que reuniu entidades representativas da indústria para discutir os principais desafios do setor. O estudo elaborado pelo Instituto de Energia da PUC-Rio mostrou uma realidade que permanece atual: o Brasil produz mais gás do que consegue disponibilizar ao mercado.

Mercado nacional

Hoje, menos de 40% da produção chega efetivamente aos consumidores. Uma parcela significativa ainda é reinjetada por limitações de processamento, transporte e escoamento. O estudo indica que a eliminação desses gargalos poderia disponibilizar cerca de 30 milhões de metros cúbicos adicionais por dia ao mercado nacional, podendo atingir 53 milhões de metros cúbicos diários em um cenário de maior expansão.

Marcio Cancellara
Marcio Cancellara, vice-presidente da ABEMI

Esses números mostram que o principal desafio deixou de estar na produção. Está na infraestrutura. Nenhum gasoduto, unidade de processamento ou planta industrial surge apenas porque existe uma decisão regulatória. Antes da obra existem estudos, engenharia, projetos, especificações, fabricação de equipamentos, integração de sistemas, construção, testes e comissionamento. É nesse momento que as políticas públicas começam efetivamente a se transformar em investimentos.

As empresas associadas à ABEMI participam diariamente desse processo. São elas que projetam, integram sistemas, constroem instalações industriais e transformam decisões de investimento em ativos produtivos. Sempre que o ambiente de negócios ofereceu previsibilidade, a engenharia brasileira respondeu com competência, como ocorreu na expansão da petroquímica, da mineração, da siderurgia, da geração de energia e do setor de petróleo e gás.

Um mercado de gás mais competitivo beneficia muito mais do que as empresas do setor energético. Ele amplia as condições para que a indústria brasileira invista, produza mais e aumente sua competitividade. O Brasil reúne recursos naturais, conhecimento técnico, empresas experientes e uma cadeia de engenharia reconhecida internacionalmente. O que ainda precisamos consolidar é um ambiente capaz de dar previsibilidade aos investimentos de longo prazo. Projetos dessa natureza exigem decisões que produzirão resultados ao longo de décadas.

A discussão sobre o mercado de gás vai muito além da energia. Ela diz respeito ao futuro da indústria brasileira. A engenharia nacional sempre esteve presente nos momentos em que o país decidiu ampliar sua infraestrutura e sua capacidade produtiva. Estou convencido de que continuará desempenhando esse papel. O Brasil não precisa descobrir mais gás. Precisa criar as condições para transformá-lo em desenvolvimento industrial.

Marcio Cancellara é engenheiro, consultor em engenharia industrial e vice-presidente a ABEMI

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